Carta de Tereza destinada a Simão após o incidente com os
empregados de Baltazar.
“Deus permitia que tenhas chegado sem perigo a casa dessa
boa gente. Eu não sei o que se passa, mas há coisa misteriosa que eu não posso
adivinhar. Meu pai tem estado toda a manhã fechado com o primo, e a mim
não me deixa sair do quarto. Mandou-me tirar o tinteiro; mas eu felizmente
estava prevenida com outro. Nossa Senhora quis que a pobre viesse pedir esmola
debaixo da janela do meu quarto; senão eu nem tinha modo de lhe dar sinal para
ela esperar esta carta. Não sei o que ela me disse. Falou-me em criados mortos;
mas eu não pude entender… Tua mana Rita está-me acenando por traz dos vidros do
teu quarto…
Disse-me agora tua mana que os
moços de meu primo tinham aparecido mortos perto da estrada. Agora já sei tudo.
Estive para lhe dizer que tu aí estás; mas não me deram tempo. Meu pai de hora
a hora dá passeios no corredor, e solta uns ais muito altos.
Ó meu querido Simão, que será
feito de ti?… Estarás tu ferido?
Dize-me o que souberes. Eu já não
peço a Deus senão a tua vida. Foge desses sítios; vai para Coimbra, e espera
que o tempo melhore a nossa situação. Tem confiança nesta desgraçada, que é
digna da tua dedicação… Chega a pobre: não quero demorá-la mais… Perguntei-lhe
se se dizia de ti alguma coisa, e ela respondeu que não. Deus o queira."
Amor de Perdição. Camilo Castelo
Branco. Coleção a obra-prima de cada autor. Editora Martin Claret. Págs. 61-62.
2002


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