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sábado, 23 de maio de 2015

MOMENTO LITERATURA IX

Cartas de Tereza 

Carta de Tereza destinada a Simão após o incidente com os empregados de Baltazar.

Na tarde desse dia recebeu Simão a seguinte carta de Tereza:

“Deus permitia que tenhas chegado sem perigo a casa dessa boa gente. Eu não sei o que se passa, mas há coisa misteriosa que eu não posso adivinhar. Meu pai tem estado toda a manhã fechado com o primo, e a mim não me deixa sair do quarto. Mandou-me tirar o tinteiro; mas eu felizmente estava prevenida com outro. Nossa Senhora quis que a pobre viesse pedir esmola debaixo da janela do meu quarto; senão eu nem tinha modo de lhe dar sinal para ela esperar esta carta. Não sei o que ela me disse. Falou-me em criados mortos; mas eu não pude entender… Tua mana Rita está-me acenando por traz dos vidros do teu quarto…
Disse-me agora tua mana que os moços de meu primo tinham aparecido mortos perto da estrada. Agora já sei tudo. Estive para lhe dizer que tu aí estás; mas não me deram tempo. Meu pai de hora a hora dá passeios no corredor, e solta uns ais muito altos.
Ó meu querido Simão, que será feito de ti?… Estarás tu ferido?
Serei eu a causa da tua morte?
Dize-me o que souberes. Eu já não peço a Deus senão a tua vida. Foge desses sítios; vai para Coimbra, e espera que o tempo melhore a nossa situação. Tem confiança nesta desgraçada, que é digna da tua dedicação… Chega a pobre: não quero demorá-la mais… Perguntei-lhe se se dizia de ti alguma coisa, e ela respondeu que não.  Deus o queira."




Amor de Perdição. Camilo Castelo Branco. Coleção a obra-prima de cada autor. Editora Martin Claret. Págs. 61-62. 2002

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